segunda-feira, janeiro 15, 2007

PÊNIS

COM VOCÊS, O PÊNIS

Homens e mulheres acotovelam-se em busca do melhor lugar para assistir ao espetáculo. Crianças acenam, emocionadas, com estatuetas nas mãos. Turistas disparam suas máquinas fotográficas. O clima de expectativa explode em euforia quando 12 homens vestidos de branco se aproximam, abrindo espaço entre a multidão em transe. Eles carregam um enorme pênis cuidadosamente esculpido em madeira, com 2,15 metros de comprimento e 320 quilos, e, com ele nos ombros, marcham por 2 quilômetros sob aplausos e saudações. Estranho? Bizarro? Não para os fiéis do santuário de Tagata, no Japão, que organizam esse festival anual em homenagem ao pênis há mais de 1 500 anos. Eles acreditam que isso garante a fertilidade e a prosperidade e protege a população do mal.

Se você acha que esse é um fato isolado, sem importância, praticado em um local distante, saiba que não é isso que a história mostra. "A veneração do pênis, como símbolo de poder, força e coragem, uma espécie de síntese das virtudes masculinas, é muito antiga e vem sendo continuamente atualizada e adaptada de acordo com os costumes de cada época", diz o pesquisador americano David Friedman. Em seu livro Uma Mente Própria - A História Cultural do Pênis, ele descreve o mais antigo ritual desse tipo. Por volta do ano 275 a.C. os moradores de Alexandria erigiam um monumental falo dourado com 55 metros de comprimento, enfeitado com uma estrela na ponta, e o levavam pela cidade, onde meio milhão de pessoas entoavam poemas em homenagem ao astro da festa, suas qualidades e beleza ímpar.

Mito e religião conviveram em paz com o pênis durante toda a Antiguidade. "Egípcios, gregos, romanos usavam a imagem do falo para representar as forças criadoras e fecundas do Universo, o poder gerador da natureza", diz Bayard Fischer Santos, médico andrologista de Porto Alegre (RS), autor do livro A Medida do Homem. Na cidade de Pompéia, no antigo Império Romano, era comum colocar uma imagem fálica na porta de entrada das casas, ao lado da frase: "Aqui mora a felicidade". Não se tratava de um prostíbulo, mas de uma moradia que queria atrair sorte e afastar os espíritos das trevas. "O pênis aparecia em peças decorativas e artísticas sem um contexto erótico, mas como um símbolo das virtudes masculinas", afirma Mariela Kantor, professora de História da Arte da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo.

O caráter sexual só entrou em jogo por volta do século 2 a.C., quando o falo começou a ser usado como arma de sedução. Sem cerimônias, os gregos mostravam-no para conquistar donzelas e efebos e se exercitavam nus nas arenas esportivas.

A anatomia peniana era considerada bela e, como tal, deveria ser mostrada. Algo parecido com a atual valorização e exibição da bunda feminina em nossa sociedade.

Na Europa, tudo ia muito bem, todos estavam felizes expondo suas formas, até o século 5. Com o crescimento da influência cristã, o pênis, um ícone da força pagã, ganhou o título de vara do demônio. "Em uma cultura na qual a virgindade simboliza a pureza, o membro masculino representava tudo que era maléfico, vergonhoso e destruidor", diz Friedman. Afinal, o próprio Cristo teria sido gerado sem a participação do pênis. Essa linha de pensamento tinha um porta-voz: Santo Agostinho (sempre ele). "O pênis é a gargaleira poluída por onde emerge o mais obsceno dos eflúvios, o sêmen", escreveu o célebre pensador da Igreja.

Até o século 15, para possuir, expor ou utilizar um pinto deveriam se seguir regras tão restritivas que infringi-las poderia acabar em cana braba. Usá-lo para obter prazer sem procriar, por exemplo, era um pecado diante de Deus e um crime perante a sociedade. Na Inglaterra medieval, mais precisamente no século 6, assassinos eram condenados a sete anos de reclusão, enquanto homens que recebiam sexo oral podiam pegar prisão perpétua.

O falo em riste, antes associado à fertilidade, passou a ser a imagem dos sofrimentos infernais. O rigor religioso tampouco poupava os homens com problemas de ereção. "A incapacidade de procriação era considerada um desvio de conduta moral, uma condenação divina. Falhas sexuais comumente serviam de justificativa para a dissolução legal do casamento", afirma Friedman. Não era à toa que alguns homens adotavam medidas extremas, cortando o mal pela raiz. "Castrar-se chegou a ser uma prática comum entre religiosos e sacerdotes, que entendiam que dessa forma estariam eliminando sua faceta selvagem e mundana."

Durante séculos, em diferentes culturas foi comum a figura do eunuco. A castração era feita geralmente na infância e consistia em abrir o saco escrotal e remover os testículos. Em alguns casos, também o pênis era retirado. No Império Otomano os escravos eunucos eram valiosos por serem raros, já que, a cada dez homens operados, apenas três sobreviviam. Por volta do século 14, eles eram muito procurados pelos governantes, que lhes entregavam a administração de seus haréns. Pela confiança que inspiravam, chegavam a atingir altos postos na corte.

Na China, durante mais de 3 mil anos, os funcionários do palácio real eram eunucos. Treinados em técnicas militares, extremamente cultos e bem relacionados, em certos períodos eles tiveram mais poder que o próprio imperador. O último deles morreu em 1996, aos 94 anos. Na Itália, cantores de ópera tinham os testículos removidos para conservar o timbre agudo da voz. Os castrati surgiram no século 16, quando as mulheres foram banidas dos palcos, e foram proibidos pelo papa Leão XIII, em 1878. Ainda hoje, na Índia, os hijra constituem uma casta de eunucos com mais de 1 milhão de indivíduos.



Retrato falado

O Renascimento na Europa recolocou o homem no centro das discussões filosóficas e descortinou a anatomia humana. Foi Leonardo da Vinci que retomou o tema ao desenhar mais de 5 mil páginas com esboços sobre o pênis. Da Vinci dissecou cadáveres e elaborou o maior compêndio de anatomia sobre o órgão sexual masculino até então. Seus estudos libertaram o pênis do esquecimento e desbancaram teorias furadas sobre seu funcionamento. Algumas delas afirmavam que a ereção acontecia por inflação de ar e que o falo seria ligado a uma artéria do coração que lhe daria vida. Ou, ainda, que o sêmen escorreria da medula espinhal até a glande.

Hoje, isso tudo parece piada. Nunca soubemos tanto sobre a anatomia e o funcionamento do pênis. Os cientistas o acompanham desde seu nascimento. Na verdade, até antes disso. Eles descobriram, por exemplo, que ainda no útero da mãe a vida do pequeno pênis é marcada por uma atividade frenética. A partir do sétimo mês, o feto tem ereções a cada uma hora e meia, que duram até 30 minutos. A razão não está completamente desvendada, mas sabe-se que está relacionada com o amadurecimento do órgão. "É uma das vias para o desenvolvimento funcional e estrutural do membro", afirma Bayard.

Durante a infância, o aparelho reprodutivo do menino muda muito pouco, crescendo desproporcionalmente ao resto do corpo. Um testículo de uma criança de 4 anos tem cerca de 2 centímetros cúbicos. Aos 10 ou 11 anos ele continuará com a mesma medida. Nessa fase, a importância do pênis fica restrita à curiosidade que desperta: é a época das explorações instintivas, das brincadeiras e comparações. Mas, de repente, chega a puberdade. As revoluções hormonais que vêm com a adolescência transformam o singelo pipi no imponente falo. O corpo reage para preparar o pênis para se tornar um órgão reprodutivo competente e competitivo. "São ajustados e testados todos os mecanismos de capacitação sexual do pênis. Tanto fisiológicos como cerebrais", diz Bayard. E, aí, ninguém segura o moço. Ele triplica de tamanho em seis meses, enquanto o saco escrotal cresce seis vezes nesse tempo. Enfim, aos 17 anos de vida, ele atinge a estatura, o diâmetro e o formato que irá ostentar para o resto de seus dias.

No topo, a glande, ou cabeça do pênis, envolta pela chamada pele vermelha, a mesma que reveste mamilos e lábios. Extremamente enervada, ela confere ao local uma sensibilidade incomparável e um brilho próprio, resultado de sua superfície lisa. Uma artimanha da natureza para atrair os olhares femininos. "O formato abaulado e a pele brilhante da glande são estruturas de exibição para provocar a estimulação visual na parceira", afirma Eduardo Farias, médico e professor da Universidade de São Paulo (USP).

Descendo um pouco, a rafe, ou corpo do pênis, é coberta por uma pele fina e extremamente elástica, similar à das pálpebras, onde existem pêlos minúsculos e glândulas que servem de proteção e ajudam na lubrificação. Sob a epiderme estão os famosos corpos cavernosos e esponjoso, a uretra e os canais deferentes, que correm da bolsa escrotal até atingirem as vesículas seminais, que estão justapostas à próstata. Uma característica rara do pinto é não acumular gordura, o que nos humanos só ocorre também no nariz e na orelha. A haste, assim como a glande, tem uma sensibilidade chamada de indiscriminada: ela reage a alterações de temperatura, pressão ou tato, mas não é tão sensível às mudanças de textura.

Logo abaixo, fica a bolsa escrotal: um refrigerador de espermatozóide, responsável pela produção, armazenamento e climatização dessas sementes, além de fabricar o principal hormônio masculino, a testosterona. Para manter-se sempre meio grau centígrado abaixo da temperatura do resto do corpo, o saco escrotal segue uma rotina de exercícios. Sempre que preciso, ele distende para refrescar ou intumesce para concentrar calor. Tanto sobe e desce só é possível graças às túnicas musculares da pele, que enrugam ou relaxam de acordo com a necessidade.

Ei-lo, então, pronto para guerrilhar e conquistar o mundo. Determinado e persistente, ele procura, agora, a ereção: seu desejo instintivo e sua razão fisiológica de ser. A natureza humana levou essa intenção primordial tão a sério que reservou ao homem dois mecanismos de ereção: o central e o reflexo. Ambos são sistemas complexos, que lembram aulas de física, disfarçadas de cenas de amor. Imagine que um homem vai experimentar uma roupa numa loja. Da solidão de sua cabina ele vê, pelo reflexo do espelho, o vestiário ao lado, onde uma loira lindíssima, de corpo escultural, começa a se despir. A calça, a blusa, a lingerie... e pimba!

O processo foi ativado. A imagem é gravada e aciona os núcleos cerebrais ligados à sexualidade. Esses enviam uma corrente elétrica para o órgão genital e causam dilatação nos vasos, que permitem a entrada de um grande volume de sangue. Há, ainda, ereções que acontecem em situação nada eróticas, desencadeadas, por exemplo, pela vontade de urinar. Nesse caso, o caminho é outro e passa pela medula espinhal, que envia impulsos para ativar o sistema reflexo no pênis. A ereção involuntária, sem estímulos sexuais, também é comum durante o sono. "Quando atingimos o sono profundo desativamos por alguns minutos o sistema parassimpático, responsável pelo controle das mensagens cerebrais e que, nesse caso, atua como inibidor dos reflexos. Sem ele, o pênis tende a permanecer rijo", afirma o médico Bayard.

Medular ou cerebral, não importa. O relevante é que o pênis passa por uma mudança rápida e radical, graças a um sistema hidráulico que gera uma pressão interna capaz de intumescer o órgão. Explicando melhor: em repouso, o pênis comporta uma quantidade irrisória de sangue (8 mililitros), que salta para 80 mililitros quando ereto, provocando a maior pressurização a que um órgão humano pode se submeter: 320 milímetros de mercúrio, nada menos que 25 vezes maior que a pressão arterial (a força com que o coração bombeia sangue para todo o corpo). Com tanto impulso, o sangue comprime as veias e impede que o membro relaxe. Não é por acaso. A natureza se programou para dificultar o escape de sangue. O pênis é a única região do corpo que tem duas artérias para cada veia. A mensagem é clara: há o dobro de vias para entrar do que para sair. Uma vez duro, o pênis tem pelo menos o dobro do tamanho, dez vezes mais quantidade de sangue e suporta até 5 quilos dependurados sobre ele.

Haja musculatura: a cada ejaculação são cerca de 5 mililitros (com 300 milhões de espermatozóides), menos que uma colher de sopa , que irão percorrer em torno de 8 metros de canais só para chegar até a extremidade da glande. Dali, os pequenos guerreiros avançam numa velocidade que costuma lançá-los a uma distância de 30 centímetros, mas que em situações de extrema excitação pode chegar a 1,5 metro. Ir longe pode ser uma vantagem para esse exército, que é muito mais valioso do que se costuma pensar. Fabricar novos espermatozóides não é tão fácil: são necessários três meses para que eles estejam totalmente maduros e prontos para a ação.

A ejaculação do homem é um momento raro na natureza. "Somos os únicos com condições de prolongar voluntariamente a ejaculação durante o sexo, o que exige uma complexidade comportamental elevada", afirma o médico Eduardo Farias. Ele diz que para a maioria dos animais a ejaculação é instintiva e rápida, reduzindo a penetração a segundos de duração. O sexo prolongado é um sinal de que o desejo, o prazer e os laços afetivos influenciaram a evolução do homem.



Sob medida

Entre os machos do planeta, os homens e alguns poucos primatas são quem mais se esforça pela ereção. A maioria dos mamíferos - incluindo a maior parte dos primatas - tem um osso na genitália, o báculo. Outros garanhões contam com cartilagens ou estruturas fibrosas que fazem a sustentação do pênis ereto sem despender muita energia, conseguindo um resultado mais rápido, duradouro e totalmente voluntário. Um gorila, por exemplo, controla a musculatura de seu pênis e, por isso, consegue mantê-lo rígido, com o mesmo esforço necessário para levantar um braço.

Em animais menos sofisticados na escala evolutiva, a variedade é ainda maior. Os invertebrados, por exemplo, têm ganchos, flagelos, sugadores, raspadores, arestas e até bifurcações na ponta do pênis. Aparatos para eliminar, do canal vaginal das companheiras, o esperma de seus rivais e aumentar as chances de seus próprios genes. Alguns tipos de tubarão têm dois pênis em formato de gancho, com pontas que parecem um leque para borrifar o sêmen, alcançando maior superfície de contato. A barata macho tem o membro dividido em lâminas que se desdobram para copular e se fecham no final, sendo guardadas no interior do corpo. Já o golfinho tem a glande capaz de fazer rotações intermináveis, fora do seu eixo, que são comandadas por determinações voluntárias.

Mas, justiça seja feita, se o pênis humano não chama a atenção pelo desenho arrojado, quando o assunto é tamanho e flexibilidade ninguém nos supera, pelo menos entre os primatas. O pênis do chimpanzé chega a 7 centímetros, quando ereto, enquanto o do gorila fica apenas em 5 centímetros, em média. Ambos têm a grossura de um lápis e não são capazes de curvaturas acentuadas. Nos humanos, o comprimento médio dobra e o diâmetro fica em torno de 3 centímetros. Leves torções são permitidas. Mas mesmo entre os homens existem diferenças estruturais impressionantes. Os machos da tribo hotentote, no sul da África, têm uma cartilagem dentro do pênis. Uma possível pista de que todos os exemplares humanos também a tiveram um dia. Porém, quis a evolução (e as mulheres) que essa pecinha desaparecesse.

É isso mesmo. Segundo Geoffrey Miller, psicólogo americano especializado em evolução humana e autor do livro A Mente Seletiva, foram as preferências sexuais das mulheres que conduziram as principais evoluções do órgão sexual masculino, selecionando para a cópula os machos que tinham as informações genéticas que as agradavam. "E a ereção humana representou um papel importante nessa escolha, já que ela é uma forma de o macho demostrar que é saudável e forte e que, além disso, está disposto para a cópula", diz Miller. Para ele, o prazer também foi determinante para chegar ao formato final do pênis, o que aconteceu há cerca de 60 mil anos. "Ele é produto da escolha das fêmeas, que preferiam o longo, grosso e flexível porque assim a cópula se tornava mais agradável", afirma.



Corpo e Alma

Se a forma do pênis é a ideal para as mulheres, para os homens ela continua um mistério. "A relação do macho com o próprio pinto raramente é harmoniosa", afirma Durval Muniz, historiador da Universidade Federal de Pernambuco. Para ele, a identidade masculina, ao contrário da feminina, tem um centro de comando biológico: o pênis. Isso explicaria por que os homens dão tanta importância a ele, preocupam-se com seu tamanho, comparam-no com os outros e entram em crise ao menor sinal de problema na região.

Eduardo Farias faz a seguinte analogia para explicar o mesmo assunto. O pênis tem cinco funções entre os primatas: atrair fêmeas, delimitar território, estabelecer hierarquia, intimidar o inimigo e fecundar. Ou seja, todas as missões essenciais para sobreviver em grupo. "Quando um macaco se sente ameaçado, fica em pé e tem uma ereção. Com ela, é como se ele dissesse: ´Tudo o que está ao meu redor é meu, não se aproxime, estou pronto para atacar´. O homem ainda faz isso, ao seu modo, como uma herança primitiva", diz Eduardo.

A civilização e a cultura nos deram recursos dissimulados para fazer essa representação. "O automóvel, por exemplo, substitui o falo na função de impressionar mulheres, declarar poder e intimidar rivais", afirma.

Esse comportamento faz parte da cultura masculina, que nem sempre é entendida pelas mulheres. A origem dessa diferença é a maneira como cada gênero lida com a sexualidade. O homem é falocêntrico, põe toda sua erotização no pênis, enquanto a mulher a distribui pelo corpo. "O pênis reúne os conceitos de procriação, prazer, virilidade e paternidade. Na mulher, eles estão separados entre o clitóris (prazer), útero (procriação), vagina (gênero), seios (maternidade)", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do programa de sexualidade do Hospital das Clínicas da USP. É muita responsabilidade.

Isso justificaria a angústia dos homens em relação à sua virilidade. O símbolo de sua força e poder está fora de seu controle. "Para ficar ereto, o pênis segue suas próprias regras. Ele é indomável e pode enaltecer ou envergonhar o macho", afirma Carmita.

Foi Sigmund Freud que primeiro se preocupou com a alma do pênis. O fundador da psicanálise dedicou parte de sua vida e de sua obra para explicar o papel dele na formação do indivíduo e da sociedade. Para ele, o pênis era o órgão fundamental na formação do caráter de todas as pessoas. As mulheres se caracterizariam pela ausência e a inveja do falo, os homens pelo medo da castração e pelo complexo de Édipo. Freud acreditava que todo o comportamento dos indivíduos podia ser explicado pela relação dele (ou dela) com o pênis.

Sessenta anos depois de Freud publicar seus Três Ensaios sobre a Sexualidade, em 1901, o pênis se tornou mote da guerra dos sexos, virou emblema político e, mais precisamente nas décadas de 60 e 70, foi um dos alvos prediletos dos discursos feministas. Na luta por direitos iguais, a mulherada contestava a tese de inveja do pênis, que de instrumento de prazer passou a ser símbolo da opressão. De novo um maldito, o pinto chegou a ser ameaçado por sua versão plastificada, o vibrador, cujo uso era encorajado pelas feministas. O resultado dessa batalha foi a chamada democratização do falo. "O pênis como símbolo de poder foi dividido com a mulher na esfera social. Hoje, elas também são chefes no trabalho e em casa e assumem papéis convencionalmente associados aos homens", diz Carmita.
Será que a importância ideológica do símbolo enfim ultrapassou seu significado concreto? Essa história ainda está longe de oferecer uma resposta definitiva. O fato é que a cada novo desafio nosso astro tem de reafirmar sua força e utilidade, ainda mais agora, numa era em que já é possível gerar um ser humano apenas com uma célula-mãe.


Frases




Ainda hoje na Índia há mais de 1 milhão de homens castrados


O pênis ereto dobra de tamanho com até 10 vezes mais sangue





Século 6 a.C.

Príapo, deus grego representado com o pênis em riste, simbolizava fertilidade e fecundidade. Filho de Afrodite e Dionísio, era o protetor dos rebanhos



Século 2 a.C.

Os gregos mostravam-se nus para conquistar donzelas e efebos. A anatomia peniana era considerada bela e, como tal, deveria ser revelada



Século 5 ao século 15

Durante a Idade Média, o furor religioso exercia um controle incrível sobre o uso do pênis. Foram criadas armaduras para impedir sua manipulação



Século 16

O Renascimento na Europa recolocou o pênis no centro da arte e da ciência. Os estudos de Leonardo da Vinci derrubaram mitos sobre seu funcionamento



1901

Com seus Três Ensaios Sobre a Sexualidade, Freud recolocou o pênis no altar de adoração de toda a sociedade. O poder do falo está de volta



1960

Os movimentos por direitos iguais entre homens e mulheres atacam o pênis, símbolo da dominação masculina. O prazer feminino começa a prescindir dele



Século 21
Depois da fertilização in vitro, o futuro acena com a possibilidade de seres humanos serem gerados sem a participação do pênis. É a era das células-mãe

RACISMO


VENCENDO NA RAÇA

Poucas coisas mudaram no mundo nos últimos 100 mil anos. Naquela época, os primeiros seres humanos modernos surgiam na África e começavam a se espalhar por outros continentes. Eles eram praticamente idênticos aos mais de 6 bilhões de pessoas que habitam hoje o planeta. De lá para cá, os únicos retoques que a nossa espécie sofreu foram pequenas adaptações aos diferentes ambientes - mudanças exteriores para lidar melhor com lugares mais frios, secos ou com ventos mais fortes. O lado triste dessa incrível capacidade de adaptação é que as diferenças físicas foram usadas para avaliar pessoas à primeira vista e atribuir-lhes qualidades e defeitos. Milhões foram escravizados, mortos ou discriminados por causa da aparência física.
Por que só agora os cientistas começam a entender as diferenças entre os seres humanos? Tanta demora para tratar do assunto tem um motivo: as primeiras tentativas científicas de analisar as raças humanas levaram quase sempre à conclusão de que algumas eram mais inteligentes e criativas - ou seja, superiores - às outras. O resultado foram as tentativas de criar uma raça "pura" e as ideologias que levaram a genocídios. "As tragédias geradas por essas teorias fizeram a ciência aceitar que as raças não tinham nada de biológico e que eram apenas um produto da sociedade. O que vemos agora é a tendência de volta à biologia", diz o antropólogo João Baptista Borges Pereira, da Universidade de São Paulo (USP).
Os cientistas estão confiantes que dessa vez o resultado será diferente. "Estudar as diferenças humanas é perigoso porque sempre existirão pessoas que distorcerão os estudos, mas acredito que os cientistas e o público amadureceram o suficiente para seguirmos com as pesquisas", diz a antropóloga Nina Joblonski, da Academia de Ciências da Califórnia, Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, as ciências humanas avaliam como o racismo é difundido e prejudicial. Nesse ponto, o Brasil está entre os piores países do mundo. O problema é complexo, mas podemos amenizá-lo. Só que, antes, é preciso saber como tudo começou.

Como nos tornamos diferentes?
Ao contrário dos chimpanzés e demais primatas, o homem não possui cabelo por todo o corpo. A adaptação provavelmente surgiu por volta de 1,6 milhão de anos atrás para esfriar o corpo de alguns dos nossos primeiros ancestrais, que começavam a se tornar mais ativos e fazer longas caminhadas. Uma mudança levou a outra: células que produziam melanina, antes restritas a algumas partes descobertas, se espalharam por toda a epiderme. Além de tornar a pele escura, a melanina absorve os raios ultravioleta do Sol e faz com que percam energia. Os cientistas acreditavam que esse traço havia evoluído para evitar cânceres de pele, mas a teoria esbarrava no fato de que esse mal costuma surgir em idade avançada, depois que as pessoas já tiveram filhos, e portanto dificilmente alteraria a evolução. Até que, em 1991, Nina Joblonski encontrou estudos que mostravam que pessoas de pele clara expostas à forte luz solar tinham níveis muito baixos de folato.
A deficiência dessa substância em mulheres grávidas pode levar a graves problemas de coluna em seus filhos. Além disso, o folato é essencial em atividades que envolvam a proliferação rápida de células, como a produção de espermatozóides. "Nos ambientes próximos à linha do Equador, a pele negra era uma boa forma de manter o nível de folato no corpo", diz a antropóloga.
Enquanto os humanos modernos estavam restritos à África, a melanina funcionava bem para todos. Eles eram um grupo bastante homogêneo, porque, por motivos desconhecidos, os primeiros humanos estiveram perto da extinção há cerca de 200 mil anos, com talvez não mais de 20 mil pessoas. Posteriormente, a descoberta de novas ferramentas e o crescimento da população tornou a África pequena demais para eles e, cerca de 100 mil anos atrás, os homens modernos chegaram à Ásia. De lá se espalharam para a Oceania, depois para a Europa e, há pelo menos 15 mil anos, à América.
Nas regiões menos ensolaradas, a pele negra começou a bloquear demais os raios ultravioleta. Esse tipo de radiação é nocivo em quase todos os aspectos, mas tem um papel essencial no organismo: iniciar a formação na pele de vitamina D, necessária para o desenvolvimento do esqueleto e a manutenção do sistema imunológico. A tendência então foi que populações que migraram para regiões menos ensolaradas desenvolvessem pele mais clara para aumentar a absorção de raios ultravioleta. Em regiões intermediárias, o truque evolutivo foi o bronzeamento - uma camada temporária de melanina para proteger o folato em épocas de sol e produzir vitamina D quando ele não fosse tão forte. Ou seja, de acordo com os novos estudos, a cor da pele é apenas uma forma de regular nutrientes.
"Adaptações ao clima afetam primordialmente características superficiais. A interface entre o interior e o exterior têm papel fundamental na troca de calor de dentro para fora, e vice-versa", afirma o geneticista italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza, um dos pioneiros no estudo de genética de populações, em seu livro Genes, Povos e Línguas. Ao se espalhar pelo mundo, os seres humanos tiveram que lidar com todo tipo de ambiente e o principal elemento a se adaptar aos extremos de temperatura, umidade, iluminação e ventos do planeta foi a aparência. Um exemplo é o tamanho do corpo: em regiões quentes é vantajoso ser baixo como os pigmeus ou alongado como os quenianos, com a superfície do corpo grande quando comparada ao volume, o que facilita a evaporação do suor. O cabelo encarapinhado ajuda a reter o suor no couro cabeludo e a resfriá-lo. O oposto ocorre em regiões frias como a Sibéria.
O corpo e a cabeça dos mongóis, que se desenvolveram por lá, tendem a ser arredondados para guardar calor, o nariz, pequeno para não congelar, com narinas estreitas para aquecer o ar que chega aos pulmões, e os olhos, alongados e protegidos do vento por dobras de pele.
A origem de muitas características, no entanto, permanece desconhecida. Muitas delas podem ter surgido por serem consideradas belas ou simplesmente por acaso. Populações de nativos da América, por exemplo, devem ter passado por momentos em que se reduziram a algumas dezenas de indivíduos, o que eliminaria os traços menos comuns, como alguns tipos sangüíneos. Há também a influência da cultura: algumas mudanças podem não ter ocorrido porque os homens já tinham meios de se proteger do ambiente. "Ainda não sabemos se a maioria dos traços foi fruto da adaptação ou da sorte, mas é provável que os estudos do genoma humano expliquem muitos deles nos próximos dez anos", diz a antropóloga Nina Joblonski.
As modificações, no entanto, não foram muito além da aparência, graças à homogeneidade da população humana em seus primórdios e ao pouco tempo que ela teve para evoluir desde então (cerca de 7 500 gerações). Os poucos traços que mudaram também não estão ligados entre si, o que permitiu que uma mesma pessoa tenha características de diferentes etnias e criou um contínuo de cores entre as populações. Entretanto, a visão é o sentido mais apurado do ser humano e o fato de essas diferenças estarem na aparência levou muitos a considerá-las profundas.

Existem raças humanas?
Em 1758, o botânico sueco Carolus Linnaeus - o criador do atual sistema de classificação dos seres vivos - deu à humanidade o nome científico de Homo sapiens e a dividiu em quatro subespécies: os vermelhos americanos, "geniosos, despreocupados e livres"; os amarelos asiáticos, "severos e ambiciosos"; os negros africanos, "ardilosos e irrefletidos", e os brancos europeus, evidentemente, "ativos, inteligentes e engenhosos". Estava aberta a discussão sobre a existência de raças humanas e o valor de cada uma. No entanto, essas características nunca foram comprovadas e a principal conseqüência desse tipo de idéia foram as câmaras de gás nazistas, o que levou os cientistas do século 20 a acreditar que todas as diferenças entre humanos estavam na cultura. A idéia de que as raças humanas não existem biologicamente foi reforçada nos anos 70, quando pesquisas analisaram as diferenças entre as proteínas de diversas populações.
Os seres humanos estavam muito longe de apresentar uma diversidade comparável à de espécies que de fato possuem raças, como elefantes ou ursos. Na verdade, a diferença genética entre dois chimpanzés de uma mesma colina na África pode ser maior que o dobro da existente entre os 6 bilhões de humanos do planeta.
Faltava apenas uma medida precisa da grande semelhança existente entre nós, e ela finalmente apareceu em dezembro do ano passado. Uma equipe de sete pesquisadores dos Estados Unidos, França e Rússia comparou 377 partes do DNA de 1 056 pessoas de 52 populações de todos os continentes. O placar final: entre 93% e 95% da diferença genética entre os humanos é encontrada nos indivíduos de um mesmo grupo e a diversidade entre as populações é responsável por 3% a 5%. Ou seja, dependendo do caso, o genoma de um africano pode ter mais semelhanças com o de um norueguês do que com alguém de sua cidade. O estudo também mostrou que não existem genes exclusivos de uma população, nem grupos em que todos os membros tenham a mesma variação genética. "A diversidade entre as populações está nas diferentes freqüências de traços que são encontrados em todo lugar", diz o biólogo Noah Rosemberg, da Universidade do Sul da Califórnia, Estados Unidos, um dos autores do trabalho.
O estudo, entretanto, levantou um aspecto polêmico: há, de fato, uma relação entre o grupo de origem de uma pessoa e seu genoma. Em outras palavras, a ancestralidade declarada por alguém reflete uma diferença genética, mesmo que, como dissemos há pouco, essa diversidade seja de apenas 3% a 5% da que existe entre os humanos. "Existem claramente diferenças entre populações que são visíveis no genoma. Algumas pessoas podem chamar isso de raça, outras não, mas o fato é que a diversidade existe, apesar de representar uma fração bem pequena da nossa constituição genética", diz Rosemberg.
A questão já era muito discutida pelos médicos. Para alguns, mesmo que as raças não existam, a etnia de uma pessoa pode fornecer pistas que facilitem o diagnóstico de doenças. Outros acham que usar raças na medicina não só é inútil como perigoso. A polêmica ganhou força com a publicação no ano passado de uma pesquisa que afirmava que o enalapril, um remédio para problemas cardíacos crônicos, funcionava menos em negros que em brancos.
Existem de fato doenças mais comuns em algumas etnias. Um exemplo é a hemocromatose, uma desordem na metabolização de ferro, que ocorre em 7,5% dos suecos mas é quase inexistente em chineses ou indianos. Os negros americanos também sofrem mais de doenças cardiovasculares, mas o motivo ainda é desconhecido: pode ser um traço hereditário ou o resultado de mais tensões e menos acesso a serviços de saúde. Qualquer que seja a explicação, não podemos generalizar os resultados. "Cada país tem uma composição genética diferente, que varia de acordo com a história e a interação entre os grupos que para lá migraram", afirma o geneticista Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Mesmo que a raça seja um recurso útil para prever o risco de doenças, muitos médicos acreditam que seria melhor abandoná-la em prol de uma análise mais rigorosa da ascendência. "Não se sabe ao certo se usar raças na medicina é melhor do que não usar nenhuma informação sobre ancestralidade. Nós preferimos usar classificações mais específicas, que chamamos de populações", diz Rosemberg. A única semelhança, por exemplo, entre os negros do Sri Lanka, da Nigéria e do norte da Austrália é a cor da pele. A categoria ainda teria a vantagem de lidar melhor com sociedades mais miscigenadas. "Se você permitir que as pessoas declarem múltiplas ancestralidades, terá boas chances de determinar as diferenças genéticas", afirma Rosemberg.
As novas técnicas de análise genética, no entanto, abrem a possibilidade de se abandonarem de vez as classificações raciais em prol de critérios mais precisos. "Nós precisamos simplesmente olhar todos os humanos como um enorme conjunto de genes e ver se conseguimos achar alguns grupos, que provavelmente não corresponderão à divisão clássica de raças", diz Nina Joblonski. O geneticista David Goldstein, da University College, em Londres, Inglaterra, estudou a resposta a remédios em seis grupos étnicos clássicos. O resultado foi melhor quando, em vez de considerar as populações, ele reagrupou os indivíduos de acordo com semelhanças genéticas. Como os seres humanos são muito parecidos, um remédio que funcione para uma população sempre encontrará pessoas em outros grupos que também podem se beneficiar dele. No final, para cada característica poderíamos ter um novo agrupamento.
Assim como a Terra pode ser descrita por muitos tipos de mapa - do topológico ao econômico - é possível dividir as variações genéticas de infinitas maneiras e ressaltar qualquer similaridade ou diferença desejada. Se sobrepusermos todos os mapas, cada pessoa será única.
Qualquer que seja a conclusão a que os médicos e biólogos cheguem, as raças vão continuar existindo para quem estuda as ciências humanas. "Os brasileiros acreditam em raças e agem de acordo com elas. Então elas existem", afirma o sociólogo Antonio Sérgio Alfredo Guimarães, da USP. "Elas são uma categoria de exclusão e dominação que traz problemas na realidade. Mesmo que não existam biologicamente, elas criam vítimas", diz o antropólogo Kabengele Munanga, também da USP. Ou seja, ao menos na cabeça das pessoas, as raças são bem reais.

Qual a origem do racismo?
Muitos cientistas acreditam que o etnocentrismo seja universal. Os mitos de origem de alguns nativos brasileiros trazem bons exemplos. Os índios urubus, que habitam o vale do Pindaré, no Maranhão, acreditavam que todos os homens vieram da madeira, só que eles vieram das boas, enquanto seus vizinhos se originaram das podres. "Não existe nenhum relato de sociedades tribais que não tenha etnocentrismo", diz João Baptista Borges Pereira, da USP. O motivo é simples: esse tipo de idéia reforça os laços entre os grupos, estabelece fronteiras entre eles e os outros e, de quebra, levanta o moral das pessoas. Na década de 50, por exemplo, um índio kadiweu - tribo famosa por não mostrar admiração por qualquer coisa que não fosse de seu grupo - foi levado ao topo da sede do Banespa, um dos edifícios mais altos de São Paulo e com uma arquitetura ousada para a época. A reação foi: "É apenas uma casa em cima da outra. Quem faz uma, faz 100".
A característica é tão disseminada que levou psicólogos a pensar que as pessoas são programadas para discriminar grupos. Um experimento feito por três psicólogos evolutivos da Universidade da Califórnia, Estados Unidos, mostrou a alguns participantes fotos de brancos e negros junto com partes de diálogo e frases desconexas. Quando pediu que identificassem o autor das frases, metade dos participantes utilizou a raça para fazer seu julgamento. A idéia é que o racismo seria uma tendência do ser humano de formar grupos de alianças com qualquer pista que ele tiver, como cor da pele, roupa ou sotaque. A boa notícia é que o preconceito pode ser facilmente dissolvido ou substituído por outro. Quando os negros e brancos que apareciam nas fotos recebiam camisetas de cores diferentes, as "cobaias" praticamente deixavam de classificá-los pela raça.
O preconceito é tão antigo quanto a humanidade, mas o racismo parece não ter mais de 500 anos. "Antes disso, a discriminação era feita em relação à cultura e ao diferente", diz o antropólogo Kabengele Munanga. Os gregos chamavam de "bárbaro" qualquer pessoa que não falasse sua língua, mas quem a aprendesse não teria complicações. O problema começa a mudar no final do século 15, quando a Inquisição espanhola obriga os judeus a se converterem ao catolicismo. Muitos desses cristãos-novos continuam a praticar os seus ritos, o que leva os católicos a acreditar que havia algo no sangue judeu que impedia a conversão. A solução era evitar a miscigenação para que esse sangue não se espalhasse pela população. Na mesma época, os europeus chegam à África e à América e encontram um tipo de ser humano completamente diferente do que eles conheciam. "Até então, a humanidade era a Europa. O conceito de branco não existia antes de eles conhecerem o negro", diz Kabengele.
O encontro trouxe novos dilemas. Os teólogos da época discutiam se os índios tinham alma com o objetivo de saber, por exemplo, se ter relações sexuais com eles era pecado. Eles também chegaram à conclusão de que escravizar africanos era natural, com base na passagem bíblica em que Canaã, filho de Noé, embriaga-se e é condenado à servidão (Gênesis 9,25).
A partir do século 18 e principalmente no século 19, as explicações bíblicas dão lugar a argumentos científicos. Os pesquisadores associavam os traços físicos de cada raça a atributos morais para tentar eliminar características indesejáveis. Um deles foi o conde francês Joseph Arthur de Gobineau, que em 1855 concluiu que a miscigenação causa a decadência dos povos e que os alemães eram uma raça superior às outras. Um de seus discípulos foi o médico brasileiro Raimundo Nina Rodrigues, para quem os rituais de candomblé eram uma patologia dos negros.
Apesar de essas teorias terem caído em total descrédito no século 20, o tipo de discriminação que elas pregam permanece vivo em muitas pessoas. "É uma ideologia que se reproduz facilmente e que está sempre ligada à dominação de um grupo sobre o outro", diz Kabengele. Ou seja, além de qualquer aspecto psicológico, o racismo tem motivos bastante práticos. "Ele é um sistema de levar vantagens sobre outras pessoas e manter privilégios", afirma a psicóloga Maria Aparecida Silva Bento, coordenadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert).

O Brasil é racista?
Muito, mas demoramos para perceber. Durante bastante tempo, acreditou-se que o Brasil era uma democracia racial. Cronistas do século 19 chegaram a dizer que a escravidão por aqui era mais branda do que o trabalho assalariado na Inglaterra. Da mesma forma, o índio brasileiro não teria sido conquistado nem derrotado, mas sim "incorporado" à nação. A idéia ganhou força nos anos 30, inspirada pela obra do sociólogo Gilberto Freyre, para quem não havia no Brasil distinções rígidas entre brancos e negros e a discriminação era social, feita aos pobres.
O mito começou a cair a partir do final da década de 60, quando se descobriu que o Brasil não só tinha preconceito em relação aos pobres - o que em si já é terrível - como a discriminação era especialmente dirigida a negros, pardos e índios. Os dados sociais mais recentes mostram a força das diferenças raciais no Brasil (leia tabela). "Mesmo quando se comparam pessoas da mesma região, sexo, idade e educação, os negros têm desvantagens no mercado de trabalho", diz a socióloga Luciana Jaccoud, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). Ela é uma das autoras de um estudo publicado no ano passado que mostra a extensão dessas diferenças. Mesmo quando existem dados favoráveis, como o aumento do nível de ensino na população brasileira, a distância entre negros e brancos permanece constante. Essas pesquisas ajudaram a derrubar um outro mito: o de que a pobreza dos negros é apenas um resquício da época de escravidão.
É verdade que o passado de servidão colocou a maioria dos negros em uma classe social baixa, mas desde então já houve tempo para que a diferença diminuísse. Isso não acontece porque os negros não têm as mesmas oportunidades que os brancos.
Se o racismo é tão forte, por que a imagem de que éramos um paraíso racial durou tanto tempo? Existem vários motivos. O primeiro deles é que no Brasil a mestiçagem foi muito intensa. "O colonizador português não era avesso à miscigenação, o que ajudou a criar aqui um grau de mistura gênica inusitado em qualquer população do mundo", afirma o geneticista Sérgio Pena, da UFMG. Em um estudo publicado no ano passado, Sérgio mostrou que, por baixo da pele, as características do brasileiro são muito misturadas. Um branco do Sudeste ou do Nordeste do país, por exemplo, possui em média 30% de genes com origem nos povos da África. Já nos negros, o número de genes africanos é apenas um pouco maior: 55%. Na aparência, entretanto, as pessoas continuaram a parecer brancas e negras, com traços como cabelo encarapinhado, nariz largo e pele escura sempre andando juntos.
Enquanto os genes se misturavam, parece ter havido uma seleção para que a aparência permanecesse igual. "Isso significa que as pessoas no Brasil tendem a escolher cônjuges da mesma cor que elas", afirma Sérgio. A discriminação não era feita pela origem familiar, mas sim pela aparência (leia box). Mesmo em uma família negra, os filhos de pele mais branca casaram com brancas e amenizaram a discriminação. Ou seja, os genes africanos e indígenas tiveram ascensão social, mas as pessoas de pele negra continuaram pobres.
A longevidade do mito da democracia racial também tem a ver com identidade nacional. No início do século 20, o Brasil possuía várias colônias de imigrantes, ligados mais às suas regiões de origem do que ao Brasil. Havia a necessidade de unificar o país em uma mesma cultura e dar a ele uma origem e uma tradição. Foi o que tentaram fazer o modernismo da Semana de 22 e a Revolução de 30, liderada por Getúlio Vargas. "O Brasil começa a pensar em si mesmo como uma civilização híbrida, miscigenada, capaz de absorver e abrasileirar as manifestações culturais de diferentes povos que para aqui imigraram. A idéia era que os brasileiros constituíam uma só raça, um povo mestiço", afirma Antonio Sérgio, da USP. Na realidade, essa idéia de que somos um caldeirão de raças e culturas em harmonia impediu que negros e índios denunciassem o racismo e requisitassem melhores condições. Ou seja, a imagem do preto e do nativo tiveram aceitação, mas as pessoas de pele negra continuaram pobres.
O resultado da crença de que não temos racismo foi, de acordo com muitos cientistas, um dos piores tipos de racismo que se conhece. "A forma mais eficiente de reforçar o preconceito é achar que ele não existe, que é natural", diz Luciana Jaccoud. O nosso problema não está em lutas sangrentas entre brancos e negros, mas em detalhes do dia-a-dia. "Sempre que vou ao restaurante com uma amiga branca, o garçom entrega a conta para ela", afirma a psicóloga negra Maria Aparecida, do Ceert. Está em todo lugar: o diagrama do corpo humano na aula de anatomia é branco, as modelos nos outdoors, os diretores de empresas e os políticos também são. "Há uma cota implícita para branco em tudo. Até o Tarzan, um herói africano, não é negro", diz Maria Aparecida. Ela afirma que, em pesquisas, as pessoas respondem facilmente o que é ser preto ou pardo, associando-os a termos como "preconceito" e "dificuldades", mas gaguejam ao responder o que é ser branco - é "ser normal" ou "não ter que pensar sobre isso".
Para piorar, o racismo muitas vezes se mistura à discriminação por origem ou cultura, como a praticada contra nordestinos em cidades do Sul e Sudeste.
Uma das principais formas de difundir esse preconceito está nos meios de comunicação, que não raro retratam os negros em posições inferiores. Esse quadro recentemente começou a apresentar mudanças, não porque o negro foi mais respeitado, mas pela chegada de programas e filmes estrangeiros em que atores não-brancos são mais comuns. "O negro no Brasil tem espaços sociais bem definidos", afirma o antropólogo João Baptista. Um idéia bastante difundida é de que são bons no futebol e na música. O mesmo espaço, no entanto, não é dado em cargos de diretoria e outras posições de poder.

Qual é a solução?
Existem várias propostas. Para o antropólogo negro Paul Gilroy, da Universidade de Yale, Estados Unidos, considerado um dos intelectuais de maior destaque na atualidade, o conceito de "raça" deveria simplesmente ser abolido. Ele afirma que esse termo é uma categoria falsa, criada com fins discriminatórios, que não traz avanços nem faz sentido no mundo de hoje, em que a busca das empresas por novos mercados até valoriza a identidade negra. A idéia causou muita polêmica e talvez não se aplique à realidade brasileira, em que a cor da pele ainda gera preconceito. Muitos acham que, enquanto o racismo não acabar, não é possível abandonar a idéia de raça.
As principais propostas para vencer o preconceito estão agrupadas em uma categoria chamada "ações afirmativas". Essas políticas reconhecem que existem grupos com menos oportunidades e, para que tenham as mesmas chances, oferecem a eles alguns privilégios até que o problema se resolva. Já existem no Brasil algumas leis afirmativas em relação a mulheres e a deficientes, mas as políticas em relação a negros só agora dão seus primeiros passos. "Auxiliar mulheres não fere os interesses de ninguém. Elas são filhas, mães e irmãs de todo mundo. Já os negros são uma competição de verdade", diz o sociólogo Antônio Sérgio.
Entre os exemplos de políticas afirmativas estão estabelecer metas para aumentar a presença de negros em empresas ou em cargos de chefia, fixar um número mínimo de atores não-brancos em comerciais e programas de televisão, dar preferência a candidatos pretos e pardos em caso de empate em processos de seleção, privilegiar firmas que tenham mais negros entre seus funcionários ou registrar as terras remanescentes de quilombos.
O ponto mais polêmico está nas cotas em vestibulares. Os defensores afirmam que elas funcionam: nos Estados Unidos, por exemplo, a classe média negra, que era quase inexistente, aumentou consideravelmente por meio dessas políticas. Os críticos, por sua vez, falam que a solução é melhorar o ensino médio e fundamental gratuito e, de quebra, auxiliar a população de baixa renda. Essa estratégia funciona, mas talvez demore. Estudos mostram que se por um milagre as escolas públicas básicas se tornassem hoje tão boas quanto as particulares, seriam precisos mais de 30 anos para resolver as desigualdades entre pretos e brancos. "Além disso, o ensino básico já foi bem melhor e não ajudou a população negra", diz Kabengele.
Outra crítica é que a autodefinição é o único critério que existe para definir pretos e pardos, o que em teoria permite a qualquer um se aproveitar dos benefícios. "É possível que ocorram fraudes, mas acredito que elas serão raras. Seria até engraçado ver todos se dizerem negros", diz Maria Aparecida, do Ceert.
As cotas, no entanto, estão longe de ser uma solução definitiva. Elas resolvem apenas a inclusão do aluno na universidade, sem garantir que ele irá para os cursos mais valorizados e que terá condições de se formar neles. Também criam o estigma de que os alunos não-brancos são menos qualificados - um motivo que leva muitos universitários negros a se posicionarem contra as cotas. Por fim, rompe com o princípio de seleção por mérito. Existem alternativas para alguns dos problemas, como doar bolsas para que alunos negros tenham o mesmo preparo dos brancos ou criar cursinhos voltados para eles.As ações afirmativas, no entanto, são apenas parte da solução. É preciso também punir as manifestações de racismo, garantir que crimes cometidos por negros não sejam julgados mais severamente nem que eles virem alvo de violência policial. Também é importante incluir o negro em propagandas, livros didáticos e manifestações artísticas. Para coordenar essas ações, o governo federal inaugurou no mês passado a Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial. Se as medidas derem certo e pudermos ver pessoas de várias origens e cores em todos os espaços do país, então poderemos dizer que vivemos uma democracia racial e, quem sabe, esquecer definitivamente que raças humanas existem.
História em Branco e Preto

1492 - Novo mundo
As expedições pela América e África levam os europeus a conhecer povos diferentes, que eles não hesitam em escravizar, criando um intenso comércio de negros no Atlântico

1537 - Papa Paulo III
Para os exploradores do Novo Mundo que chegavam ao Brasil, os índios eram seres desalmados, que poderiam ser usados para qualquer fim. Isso só mudou em 1537, quando o papa Paulo III editou uma bula afirmando que os índios descobertos na América tinham alma

1695 - Zumbi
O líder do Quilombo dos Palmares, o principal esconderijo de escravos foragidos, é morto por tropas de bandeirantes. É nomeado herói nacional em 1995

1758 - Carolus Linnaeus
Cria um sistema de classificação de todos os seres vivos, das bactérias aos elefantes. Os humanos aparecem divididos em quatro raças, com a branca acima das outras

1855 - Arthur Gobineau
Escreve o Ensaio Sobre a Desigualdade da Raça Humana, considerada a bíblia do racismo moderno, onde defende que a miscigenação é a causa da decadência das nações

1866 - Ku Klux Klan
Surge a Ku Klux Klan, um marco da intolerância racial nos EUA, que promovia assassinatos e atos terroristas contra negros. Continua a existir até hoje

1868 - Philip Sheridan
General autor da frase "índio bom é índio morto", que ilustra o genocídio de milhões de índios promovido por desbravadores norte-americanos durante a marcha para o oeste

1888 - Abolição da escravatura
A princesa Isabel assina a Lei Áurea, que põe fim ao regime escravista, já em decadência com o fim do tráfico negreiro, em 1850, e com o retorno dos soldados negros da Guerra do Paraguai (1865-1870), que, vitoriosos, se recusam a voltar à servidão

1899 - Cesare Lombroso
Criminologista italiano famoso por tentar relacionar certos traços físicos a tendências criminosas. Fez discípulos em todo o mundo. No Brasil, seus seguidores estudam os crânios de Lampião e de Antônio Conselheiro para explicar suas atitudes

1934 - Adolph Hitler
O governante nazista comanda a morte de 6 milhões de judeus. O objetivo era eliminá-los da Europa e abrir caminho para a criação de uma raça alemã superior a todas as outras

1948 - Apartheid
A África do Sul cria um regime de segregação entre brancos e negros. Ruas, bancos de praça e até os banheiros eram de uso exclusivo de cada grupo

1964 - Martin Luther King
O líder negro ganha o Prêmio Nobel da Paz e morre dias depois com um tiro no rosto. Entre suas conquistas está a liberação do acesso a lugares públicos aos negros

1965 - Malcom X
Morre assassinado o líder muçulmano americano que acreditava que os negros eram superiores aos brancos e defendia a criação de um estado autônomo para eles

1984 - Desmond Tutu
O primeiro arcebispo negro da história ganha o Prêmio Nobel da Paz. Direcionou a igreja anglicana a tomar posição contra o apartheid na África do Sul

1991 - Rodney King
Motorista negro espancado por policiais em Los Angeles, Estados Unidos. A absolvição dos agressores gera protestos que levam à morte de mais de 50 pessoas

1994 - Nelson MandelaDepois de 28 anos de prisão, é eleito o primeiro presidente negro da África do Sul. Tornou-se mundialmente conhecido pela luta que travou contra o apartheid
Brasil dividido

Negros e Pardos
Porcentagem da população - 46%
Renda per capita média - 205 reais
Taxa de analfabetismo - 18%
Média de anos de estudo - 4,7

Status do emprego em relação ao dos pais
Ascendente - 43,9%
Igual - 42,6%
Descendente - 14,4%

Probabilidade de...
...Ser pobre - 48%
...Ser desempregado - 7%
...Não ter carteira assinada - 17%
...Ser empregador - 3%

Brancos
Porcentagem da população - 54%
Renda per capita média - 482 reais
Taxa de analfabetismo - 8%
Média de anos de estudo - 6,9

Status do emprego em relação ao dos pais
Ascendente - 52,5%
Igual - 33,1%
Descendente - 13,5%

Probabilidade de...
...Ser pobre - 22%
...Ser desempregado - 6%
...Não ter carteira assinada - 12%...Ser empregador - 7%
Negros do Norte e do Sul

Assim como o nosso país, os Estados Unidos receberam escravos. Entretanto, eles foram mais extremos: não só tiveram a Ku Klux Klan como tiveram Martin Luther King. Afinal, o que há de diferente entre o nosso racismo e o deles? Os brancos americanos são mais radicais: qualquer pessoa que tenha ao menos um ancestral negro é negro. Mesmo que uma pessoa seja considerada branca, ela pode ser reclassificada se descobrirem que tem um parente negro. "Não existem pardos para os americanos", afirma o antropólogo Kabengele Munanga, da USP. Já no Brasil, o preconceito é baseado mais na cor da pele e em outros traços físicos. Um clássico das nossas manifestações de racismo é o requisito de "boa aparência" nas ofertas de emprego. Temos também uma enorme quantidade de classificações raciais - em uma pesquisa feita em 1963, os 100 habitantes de uma vila de pescadores do Nordeste usaram 40 termos nas autodeclarações de cor. Cada estilo tem suas conseqüências. O racismo americano criou uma solidariedade entre negros e pardos e, por ser mais evidente, exacerbou as lutas raciais. Um negro que ascendesse socialmente assumia o compromisso com os membros de sua etnia. Nas décadas de 50 e 60, esse conflito levou a ações que combatessem a discriminação, em alguns casos com política de cotas. Já no Brasil, a diluição da questão racial dificulta a união entre os não-brancos. "É comum o negro que ascende socialmente romper o contato com os outros de sua classe para se preservar. Ele também se torna rigoroso com a família e com a moral para manter a respeitabilidade", diz João Baptista Pereira, da USP. É um racismo pouco assumido, que pressiona os negros e evita que eles se mobilizem. Martin Luther King teria dificuldades muito maiores por aqui.

PROSTITUIÇÃO


VENDE-SE SEXO

"Agente entra nessa por falta de opção. Mas depois se acostuma, começa a gostar." "Perigoso é. Mas fazer o quê?" "Quanto mais rápido melhor, porque pode ter outro cliente esperando."
Todas essas frases são de representantes de uma das classes trabalhadoras mais polêmicas das cidades brasileiras: os motoboys (elas aparecem no documentário Vida Loca). Mas elas são comuns nos discursos que tratam de outra profissão, mais antiga e polêmica do que a retratada no filme: a prostituição.
No Brasil, prostitutas e motoboys ainda são vistos da mesma maneira pela legislação. São trabalhadores informais e autônomos, sem leis específicas que determinem seus direitos e deveres ou que regulamentem sua atividade. Não pagam impostos e não recebem benefícios. No entanto, prostitutas são estigmatizadas de forma bem mais negativa que motoboys. Por quê?
O que determina esse estigma? Por que duas atividades igualmente não regulamentadas, igualmente arriscadas, são tratadas de maneira tão diferente pela polícia, pelo governo e pela população? Até que ponto o uso comercial do seu próprio corpo é legítimo e inofensivo?
Nas últimas décadas, a tentativa de responder a essas perguntas tem dividido governos, acadêmicos e trabalhadores em todo o mundo. O tema é complexo o suficiente para tornar quase toda conclusão questionável. Mesmo quem conhece profundamente o assunto tem dúvidas sobre como lidar com ele. "Acho que a legalização é um passo necessário, mas não estou segura de que irá melhorar a vida dessas mulheres", diz a historiadora Margareth Rago, autora de Os Prazeres da Noite: Prostituição e Códigos da Sexualidade Feminina em São Paulo. Uma prova de que, quando o assunto é prostituição, as interrogações são bem mais freqüentes do que qualquer ponto final.

VÍTIMAS DE QUEM?
São 6 da tarde e Laura chega ao trabalho. Faz ponto no Parque da Luz, centro de São Paulo. Aos 26 anos, trabalha por conta própria e ganha, em média, 3 mil reais por mês. "Sexo anal só faço se estiver precisando muito de dinheiro."
Oito da noite. Sylvie, uma estudante francesa de 20 anos, chega a um bar em Saint German de Prés, centro de Paris. Ela se encontra com um homem bem mais velho. Sylvie recebe 450 euros (quase 1 350 reais) para passar a próxima hora com ele, um de seus cinco clientes. Com os 2 250 euros mensais (6 750 reais), paga o aluguel, compra livros e se diverte com os amigos no fim-de-semana.
Cínthia chega para o trabalho às 9 da noite. "Quis virar prostituta para conhecer essa vida. Quero escrever um livro depois." Ela ganha 150 reais pelo programa e comissões pela bebida que o cliente consome na casa. "Mais de 3 mil por mês", diz.
Essas três mulheres ganham a vida vendendo serviços sexuais. Negociam como podem sua força de trabalho, sob as conhecidas leis de mercado que regulam o valor da oferta pelo volume da procura. Assim, ganham valores diferentes pelo que, à primeira vista, pode parecer a mesma coisa. Cada uma também está sujeita a condições e regras diversas, mas, apesar das diferenças, são exemplos de mulheres independentes financeiramente, que começaram a trabalhar como prostitutas quando já eram maiores de idade. Ainda assim, são mulheres estigmatizadas.
Há muitas outras formas de uso comercial do potencial erótico do corpo - as campanhas publicitárias de cerveja são um exemplo inevitável -, mas nenhuma incomoda tanto quanto a venda de serviços sexuais. Ou melhor, a venda desses serviços por mulheres.
Nem sempre foi assim. Houve momentos em que as prostitutas desempenharam sua atividade como qualquer outro profissional e não carregavam o estigma de delinqüentes e imorais que se consolidou no século 19. "A cada vez mais insistente moralização condenou (a prostituição) à semiclandestinidade e a tornou naturalmente cara", escreveu em 1975 o crítico social francês Michel Foucault, no clássico Vigiar e Punir. Além disso, as feministas transformaram a atividade numa bandeira contra a opressão patriarcal. "Instituiu-se a idéia de que a prostituta é uma vítima sem controle de seu contrato de trabalho", diz a socióloga inglesa Julia Davidson, autora de Prostitution: Power and Freedom ("Prostituição: Poder e Liberdade", sem versão em português).
Os riscos típicos de um trabalho noturno, nas ruas, reforçam a imagem de vítimas. É claro que essa imagem não é totalmente incorreta. Relatos de violência não são raros entre prostitutas. Mas a explicação de que eles são uma conseqüência inevitável das condições de trabalho está longe de agradar a todo mundo. "Não há nada mais perigoso na prostituição do que em outros trabalhos", afirma a inglesa Niki Adams, que coordena o Coletivo Inglês de Prostitutas, uma organização da classe. "Mulheres ficam sozinhas com homens em várias situações e não são estupradas ou violentadas. O alto nível de violência contra prostitutas se deve à falta de punição para esse tipo de crime", diz. Isso que dizer que, talvez, o trabalho só seja mais perigoso porque não é vigiado como outras profissões.
Da polícia, prostitutas costumam receber indiferença. Se uma garota chega na delegacia dizendo que foi violentada ou roubada, a resposta mais comum é o deboche. E isso é até um avanço. "Pelo menos os abusos são raros hoje em dia. Há cinco anos, não era incomum ouvir histórias de garotas que eram levadas para os DPs para participar, a contragosto, de orgias", diz a assistente social Ilza de Souza, que coordena há nove anos a Casa de Apoio à Mulher Marginalizada, em São Paulo.
As doenças são outro risco inerente à prostituição. Mas, ao contrário do que se imagina, prostitutas vêem preservativos como um item básico do seu kit de trabalho. Como luvas para um enfermeiro. Em uma pesquisa patrocinada pela Unesco, feita em 2000 pela ONG Musa (Mulher e Saúde), 99,4% das entrevistadas afirmaram usar preservativo para sexo vaginal, 100% para sexo oral e 97,6% para sexo anal.
Mas não é raro a exigência pelo uso de preservativo ser flexionada diante da necessidade de dinheiro. "Chega uma idade em que a mulher não pode concorrer com garotas mais jovens e começa a abrir mão de certas exigências", diz Gabriela Leite, presidente da ONG Davida, que faz parte da Rede Internacional de Trabalhadores do Sexo. Para ela, os problemas de prostitutas são os de todo trabalhador informal que, sem direito a benefícios previstos na legislação trabalhista, é obrigado a se virar como pode. Imagine se houvesse incentivo - e pagamento extra - para enfermeiros trabalhando sem luvas?

QUEIRA OU NÃO, EXISTE
A demanda por serviços sexuais é uma realidade que escapa a argumentações. Cada vez mais sólida e organizada, a indústria do sexo não deixa dúvidas sobre o número de compradores e emprega milhares de pessoas que optam por fazer uso comercial dos seus corpos. O Daily Planet, o maior bordel australiano, começou a negociar ações na bolsa em março de 2003 e tem movimentado milhões de dólares por dia. Nos Estados Unidos, só a indústria pornográfica legal - que inclui filmes, acesso a sites, sexo por telefone e outros serviços do tipo - fatura em torno de 10 bilhões de dólares por ano, segundo estimativa do instituto Forrester Research. Isso significa que, por lá, pornografia é melhor negócio do que futebol americano, basquete e beisebol - juntos.
O projeto de lei elaborado por Fernando Gabeira em 2002, que propõe a legalização da atividade, se justifica exatamente pela "inaceitável hipocrisia com que se considera a questão". Prostituição existe. Todos sabemos. Mais que isso, prostituição existe apesar dos esforços para proibi-la.
A lei brasileira que trata a questão poderia ser chamada de moderada (veja a lei de outros países na página 68). Mas seria mais exato chamá-la de confusa. Aqui, não há legislação referente à compra e à venda de serviços sexuais e o exercício da profissão é tolerado. Ou seja, prostituição não é ilegal. Ainda assim, há um clima de insegurança que reforça o estigma de marginalidade da profissão. O Código Penal prevê prisão de até dez anos para o lenocínio, como é chamado o incentivo de qualquer tipo à prostituição. Isso significa que - além dos cafetões - bordéis, boates com garotas disponíveis para programas, casas de massagem e todos os eufemismos para prostíbulos que anunciam seus serviços até em outdoors e programas de TV são ilegais.
No ano passado, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, manifestou seu apoio ao projeto de legalização. Ainda assim é bastante improvável que a lei seja aprovada. "As principais barreiras são o paternalismo, que vê prostitutas como vítimas, e o romantismo", diz Gabeira. Para muita gente, é difícil aceitar que sexo possa ser comercializado da mesma maneira que serviços mundanos. "Eu tenho todo o direito de não gostar de algo. Mas, minha condenação moral não pode se sobrepor ao direito do outro", diz a advogada Adriana Gragnani, do Núcleo de Estudos da Mulher, da USP. Para ela, os direitos individuais sobre o corpo, assegurados pela Constituição, autorizam qualquer adulto a optar pela prostituição como atividade profissional.

DIREITO OU FALTA DE ESCOLHA?
"Prostituição é um assunto tenso entre liberais", diz a socióloga Julia Davidson. A idéia de que todo indivíduo tem direito sobre seu corpo e sua força de trabalho serve de argumento àqueles que defendem a descriminalização. Para eles, quando consentido, o comércio de serviços sexuais não pode ser mais degradante do que qualquer outro serviço. "Que parte do corpo você vende para pagar contas? Seus dedos digitadores? Sua voz ao telefone? O cérebro com o qual você pensa?", escreveu a prostituta Margot St. James no livro A Vindication of the Rights of Whores ("Reivindicação dos Direitos das Putas", sem versão em português, com título que parodia A Vindication of the Rights of Women, clássico do feminismo escrito em 1792).
Mas será que existe algo fundamentalmente mais degradante em receber para fazer sexo do que receber, por exemplo, para digitar os 14 634 caracteres desta reportagem? Não é impossível que um dos pais do liberalismo respondesse que sim. O filósofo inglês John Locke (1632-1704) acreditava que o corpo é um presente divino e, portanto, sagrado. "A relação de um homem com seu corpo não é igual à de nenhuma outra propriedade. Assim, ele não pode se matar ou se escravizar", escreveu em Ensaio Filosófico sobre o Entendimento Humano.
Ou seja, mesmo os liberais não têm certeza do que pode ser comercializado sem que haja danos morais. E isso parece ser fundamental quando o assunto é prostituição. "As leis proibindo violam nosso direito de negociar o que é nossa propriedade ou a prostituição em si viola o direito natural à dignidade?", escreveu Davidson no livro ainda não lançado Anomaly of Prostitution ("Anomalias da Prostituição").
Responder a essa pergunta tem sido um objetivo para a psiquiatra americana Judith Herman, que dirige o programa Vítimas da Violência no Hospital Cambridge, nos Estados Unidos. "Os traumas que prostitutas sofrem estão entre os mais difíceis de entender e mais desafiadores de tratar", escreveu no artigo "Escondida à Vista: Observações Clínicas sobre Prostituição". Nesse trabalho, ela analisa quatro casos em que a paciente esteve envolvida com prostituição e conclui que é impossível comercializar serviços sexuais sem sofrer um dano psicológico profundo e difícil de reverter. "Além de problemas psiquiátricos, muitas das prostitutas que tratamos são dependentes químicas", diz o médico sueco Stig Larsson. "Drogas e bebidas parecem ser primordiais para que elas encarem a jornada de trabalho."
As quatro pacientes acompanhadas por Judith no estudo foram vítimas de violência sexual quando ainda eram crianças e estavam envolvidas na prostituição desde cedo. Há alguma diferença entre elas e prostitutas adultas, que dizem ter escolhido a atividade?
A socióloga americana Kathleen Barry acredita que não. "As definições de consentimento e de força separaram falsamente a prostituição do estupro, legal e socialmente", escreveu em The Prostitution of Sexuality ("A Prostituição da Sexualidade", sem versão em português). Para ela, toda forma de prostituição é um estupro, algumas mais sofisticadas, outras simples e objetivas.
Mas como aplicar essa teoria à prostituta americana Norma Almodóvar, que coordena uma filial da organização Coyote, sigla para Call off Your Old Tired Ethichs (algo como "Abandone Sua Ética Velha e Caduca")? "Prostituição nunca foi degradante para mim porque eu acredito que sexo é algo positivo, independentemente de ser feito com amor ou como um serviço. Desde que seja consensual, é positivo", escreveu na biografia Cop to Call Girl: Why I Left the LAPD to Make an Honest Living as a Beverly Hills Prostitute ("De Tira a Garota de Programa: Por Que Deixei o Departamento de Polícia de Los Angeles para Ganhar a Vida Honestamente Como uma Prostituta de Beverly Hills", sem tradução em português). O título, quase um prólogo, resume a sua opinião sobre as duas atividades.
É ingênuo pensar, no entanto, que a maior parte das mulheres faz uma escolha tão determinada quando entra para a prostituição. Em geral, a venda de serviços sexuais se torna uma das únicas opções para mulheres com baixíssimo grau de escolaridade e poucas perspectivas de trabalho, em especial em países subdesenvolvidos. "Mas isso não significa que elas não sejam agentes de suas escolhas", diz Julia Davidson, que, na última década, entrevistou centenas de prostitutas em países onde prostituição se tornou uma saída financeira. "A maioria pesa as alternativas. Não seria pior trabalhar como empregada doméstica ganhando menos, com condições piores e ainda sofrer assédio sexual do patrão?", pergunta Julia. "Muitos trabalhos não são uma escolha", diz a prostituta americana Carol Leigh, da Rede de Educação sobre Prostituição. "Você pode escolher ser médica ou escritora, mas quase ninguém escolhe ser garçonete." Nem por isso, ser garçonete é proibido.

E QUAL É A SOLUÇÃO?
Em termos gerais, a discussão sobre prostituição apresenta dois grupos: os abolicionistas e os pró-trabalhadores do sexo. Na hora da briga, os abolicionistas acusam os pró-trabalhadores de fazer lobby para a indústria do sexo, que perpetua a histórica desigualdade de gêneros à qual, ao que parece, estamos condenados.
Os pró-trabalhadores, por outro lado, acusam os grupos abolicionistas de querer higienizar a sociedade. "A intenção não é melhorar a vida das prostitutas, mas estabelecer uma sociedade que eles julgam ideal, onde não há prostituição", diz Gabriela Leite. "O problema é que acabar com a prostituição visível só empurra milhares de mulheres para o submundo." Ou seja, acaba piorando a vida dessas mulheres.
Mas os pró-trabalhadores não são um grupo homogêneo. Alguns acham que a prostituição deve ser uma atividade com carteira assinada, impostos e benefícios. É uma tentativa de fazer com que ela se torne tão ordinária quanto muitas outras profissões. "Nesse caso, crescem as chances de as mulheres se verem como profissionais e, assim, podem cogitar mudar de emprego. O estigma hoje é tão forte que, uma vez na prostituição, elas se sentem incapazes de fazer outra coisa", diz a historiadora Margareth Rago.
Mas há também quem lute pela descriminalização sem legalização. "Regulamentar a atividade só transfere os direitos de cafetão ao Estado", diz Niki Adams, do Coletivo Inglês, cujo slogan é "somos a favor das prostitutas, mas contra a prostituição". Na prática, é uma situação contraditória que acha que os governos têm de pagar o preço pelo fato de algumas mulheres terem de viver da prostituição. No projeto de Adams, prostitutas não pagariam impostos nem abdicariam dos benefícios do governo. Ou seja, teriam mais vantagem que qualquer outro trabalhador.
"A regulamentação não resolve o problema. Nos países em foi implantada, apenas 12% das mulheres trabalham nas áreas legais", diz Niki. Talvez o número não seja esse, mas um estudo holandês avaliando a lei de legalização foi divulgado em janeiro de 2003 com conclusões bastante desanimadoras. O documento do Centro de Documentação e Pesquisa do Ministério da Justiça do país, reconhece que, como a aplicação da lei se dá de forma irregular, ela "está levando à realocação das práticas criminosas para municípios onde os controles são menores." Além disso, a nova lei faz com que muitas mulheres, na maioria imigrantes sem os papéis necessários para trabalhar legalmente, se submetam a condições terríveis de trabalho e dependam cada vez mais de intermediários.
Ironicamente, parece que as conseqüências da lei sueca, que aumentou o rigor contra a proibição em 1999, foram exatamente as mesmas. Um estudo realizado na cidade de Göteborg e divulgado na mesma época que o relatório holandês dizia que prostitutas ainda trabalham, mas agora oferecem seus serviços pela internet. "Elas estão expostas a mais riscos do que mulheres nas ruas, que podem negociar preços, estabelecer regras e discutir outros aspectos de seu trabalho", diz Jonas Flink, um dos autores do estudo.Todas essas conclusões deixam claro que, se ainda não temos uma maneira eficiente para lidar com a prostituição, apesar dos milhares de anos que convivemos com a atividade, não é exatamente por falta de vontade. Um tema complexo como esse requer um debate sério e corajoso. "Prostituição é um ótimo negócio e, exatamente por isso, os governos preferem ser hipócritas a encarar a situação", diz a americana Judith Herman. E, se a hipocrisia é mesmo a reticência da vida, como escreveu José de Alencar, encarar o debate de frente é o primeiro passo para que essa discussão chegue a conclusões dignas de ponto final.

domingo, janeiro 14, 2007

CÂNCER DE MAMA


A CAMINHO DA VITÓRIA

A mão da mulher desliza sobre o seio, durante o banho. Ela percebe um pequeno caroço na altura da axila. O nódulo parece ter o tamanho de um grão de feijão. "Será câncer?" A hipótese a deixa tão assustada que ela evita tocar na mama novamente. Pensa na família, na turma do escritório, nos projetos para o futuro. Lembra-se dos momentos de tristeza pelos quais já passou. "Vou morrer? Terei de tirar meu seio? Por que isso está acontecendo comigo?", angustia-se. Marca uma consulta com um mastologista, o médico especialista em doenças de mama, mas se vê tentada a esconder o caroço de si mesma e dos demais. "É tão pequeno", consola-se. "Talvez seja apenas um cisto."Não se trata de uma cena incomum. Anualmente, cerca de um milhão de mulheres em todo o mundo descobre que está com câncer de mama, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, a cada ano são diagnosticados, em média, 31 500 novos casos da doença, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Parte deles, felizmente, ainda em estágio inicial. Como o caso da atriz Patrícia Pillar, que viveu, no final do ano passado, uma situação parecida àquela descrita no parágrafo anterior. Patrícia descobriu um tumor de 1,5 centímetro. Teve de passar por uma cirurgia, retirando cerca de um quarto do seio esquerdo, além de se submeter a sessões de quimioterapia para evitar que células malignas se espalhassem pelo corpo.
Um dos principais responsáveis pela mortalidade feminina, em especial no meio urbano, o câncer de mama hoje é visto como um inimigo que pode ser vencido, graças ao aprimoramento dos diagnósticos e aos tratamentos menos agressivos. "Durante décadas, o tempo de vida de uma mulher com câncer de mama não passava de dez anos. Atualmente, mesmo que tenha ocorrido metástase, as pacientes vivem mais e melhor", diz a mastologista Maria Elisabeth de Mesquita, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Câncer de mama não é mais sinônimo de sentença de morte." Os hábitos preventivos, como o auto-exame dos seios, aos poucos se difundem entre as mulheres e ajudam na detecção precoce do câncer. "Quanto mais cedo o tumor for encontrado, maiores as possibilidades de um tratamento eficaz", diz o mastologista Mário Mourão Netto, do Hospital do Câncer A.C. Camargo, em São Paulo.

O mal
As causas para o aparecimento do câncer no seio ainda não são totalmente conhecidas. Sabe-se que a combinação de mutações genéticas, estilo de vida e influência ambiental pode levar, sem uma razão específica, a mudanças no funcionamento dos genes das células mamárias. Com isso, a dinâmica dessas células é alterada e elas passam a se multiplicar de maneira descontrolada. "Em média, são necessárias quatro ou cinco mutações em nossos genes para transformar uma célula mamária benigna e normal em câncer", diz a oncologista Julie Gralow, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.
Você pode passar a vida inteira com uma mutação genética sem, necessariamente, desenvolver um tumor. O problema é quando ela ocorre em duas categorias específicas de genes: nos oncogenes, que são causadores de câncer, ou nos genes supressores de tumor, responsáveis por prevenir qualquer alteração no DNA e conter o crescimento celular descontrolado. (Em abril deste ano, cientistas identificaram um novo gene supressor relacionado ao câncer de mama, o CHEK2, cujas mutações causam 1% dos casos.) O organismo se mantém sadio se os genes supressores de tumor vencem a batalha contra os oncogenes. O câncer é, justamente, a inversão dos resultados dessa guerra.
"Quando os oncogenes são ativados de maneira inapropriada ou quando os genes supressores são incorretamente desligados, a célula maligna começa a crescer, a se multiplicar e a se espalhar", afirma Julie. Aparece, então, um tumor. Os especialistas se perguntam que fatores poderiam disparar essa alteração de comando. Eles já sabem que algumas características favorecem o aparecimento de um tumor no seio. "Existem estudos que indicam que o câncer de mama apresenta forte dependência hormonal e que o estrógeno, o hormônio sexual feminino, em grandes quantidades poderia ser tóxico para os genes", diz a mastologista Carmen Molina Wolgien, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo.
Por isso, fazem parte do grupo de risco mulheres que estão sob uma exposição mais longa à ação do estrógeno: aquelas que tiveram sua primeira menstruação muito cedo e entram tardiamente na menopausa, as que engravidaram pela primeira vez depois dos 30 anos ou, ainda, as que chegam à meia-idade sem filhos. "O amadurecimento total das células mamárias só ocorre com as mudanças orgânicas trazidas pela gravidez e pela amamentação", diz Elisabeth de Mesquita.
O estilo de vida também desempenha um papel importante. Alimentação com base em comidas gordurosas e carnes vermelhas e sedentarismo também propiciam o aparecimento do câncer. Mas as células malignas não escolhem este ou aquele organismo para aparecer e se alastrar. "Mesmo mulheres com risco zero podem desenvolver câncer de mama", diz Elisabeth. Uma das explicações para isso seria a herança familiar: genes modificados que passam de pais para filhos.
Entre 5% e 10% dos casos são hereditários. Aqui cabe uma ressalva: apesar de ser considerado uma doença tipicamente feminina, o câncer de mama atinge cerca de 1% de todos os homens do planeta. Outros tantos, mesmo sem apresentar a doença, são portadores de mutações nos genes que levam ao câncer e podem passá-los aos filhos e filhas. No início da década de 1990, os cientistas identificaram dois desses genes: o BRCA 1 e o BRCA 2 (a sigla vem de breast cancer, que quer dizer "câncer de mama", em inglês). Ambos atuam como supressores de tumor, consertando alterações no DNA. "São dois dos maiores genes do genoma humano e as proteínas que fabricam interagem com vários outros produtos da célula", diz o geneticista Carlos Moreira Filho, da Universidade de São Paulo.
Com a ajuda de técnicas de biologia molecular, Carlos estuda as alterações no BRCA1 e no BRCA 2 - no total, são mais de 1 000 mutações possíveis em cada um deles. Ele e sua equipe, em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, realizam exames para confirmar a predisposição ao câncer de mama em homens e mulheres que vêm de famílias com histórico da doença e buscam aconselhamento genético.
Todo ser humano traz, nas células somáticas, duas cópias de cada um dos genes BRCA. Se você já nasce com uma cópia modificada, qualquer mutação ao acaso na cópia sadia poderá levar ao câncer. "Se a mulher nasce com uma cópia alterada de um desses genes, tem 82% de chances de desenvolver a doença até os 70 anos", diz Carlos. "Mas isso pode acontecer bem antes, porque uma das características do câncer de mama hereditário é a precocidade."
Em geral, os tumores malignos aparecem a partir dos 50 anos de idade, embora a incidência em mulheres mais jovens esteja aumentando. E podem ser de vários tipos. Os carcinomas se originam das células do tecido epitelial, que reveste os lóbulos (as glândulas encarregadas da produção de leite) e os ductos mamários (canais que ligam os lóbulos aos mamilos). São responsáveis por 99% dos casos. E existem os sarcomas, formados a partir das células dos tecidos fibroso e muscular. "Os sarcomas são mais raros, porém mais agressivos, porque aparecem numa área vascularizada, o que facilita a metástase", diz o mastologista Pedro Aurélio Ormonde, do Inca, no Rio de Janeiro (veja o infográfico na página ao lado).

A cura
Existe um consenso entre os especialistas de que a mulher não morre de câncer de mama, mas com câncer de mama. A causa da morte é a metástase, que leva a doença aos órgãos vitais, como o fígado, o pulmão, a coluna e o cérebro. Como os seios são uma região muito vascularizada, as células malignas podem seguir pelos vasos sangüíneos ou linfáticos para outras partes do corpo. Se o tumor for identificado precocemente, as chances de essas células malignas se espalharem diminui. E pode-se falar até em cura, quando o tratamento consegue afastar de vez o risco de recidiva (a volta da doença) ou de metástase. Com a precisão cada vez maior das técnicas de diagnóstico e procedimentos mais efetivos e menos mutilantes, já é possível, sim, vencer o câncer no seio (veja tabela na pág. 65).
"Uma célula maligna leva de sete a dez anos para se tornar um carcinoma com 1 centímetro de diâmetro", diz o mastologista Mário Mourão Netto. Esse é o tamanho mínimo do tumor que o auto-exame das mamas ou o exame clínico, realizado pelo médico, consegue detectar. Para encontrar tumores menores, que ainda não são palpáveis e, assim, evitar o perigo de metástase (mesmo em pequena escala), os especialistas optam pela mamografia, que consegue identificar nódulos malignos do tamanho de uma ervilha, com 5 milímetros. Trata-se de um exame recomendado para mulheres com mais idade, cujas mamas já apresentam um volume considerável de gordura, o que facilita a visualização do tumor. Para as mais jovens, que ainda não chegaram aos 40 anos, os médicos indicam a ultra-sonografia.
Estudos recentes realizados nos Estados Unidos demonstraram que a mamografia apresenta uma margem de até 15% de erro e pode acusar um falso resultado positivo para alterações mamárias benignas, como os cistos. "Mesmo assim, continua sendo o melhor exame para rastrear o câncer de mama em seus estágios iniciais", diz Carmen Wolgien. Com a tecnologia de alta resolução, fica ainda mais fácil reconhecer tumores minúsculos. A OMS divulgou, no início de 2002, um comunicado atestando que a mamografia realmente pode ter prevenido 35% dos casos de morte por câncer de mama em mulheres com idades entre 50 e 69 anos (leia quadro na pág. 64).
Outro avanço nos campos do diagnóstico e do tratamento vem com a pesquisa do chamado "linfonodo sentinela". Até meados da década passada, nas cirurgias, além da retirada do tumor maligno, os médicos faziam o "esvaziamento da axila", ou seja, tiravam também todos os gânglios linfáticos (ou linfonodos) da região da axila. "As complicações e a baixa na qualidade de vida da paciente com tumor de mama não vinham da mastectomia em si, mas da retirada de todos os linfonodos e, com eles, de toda a defesa do braço para o resto da vida", diz Pedro Aurélio. "Era comum, depois de analisar o material, o patologista dizer que os nódulos linfáticos não estavam afetados."
A nova técnica para evitar uma mutilação desnecessária é simples. O oncologista injeta um corante no tumor, antes da cirurgia, e a substância migra para o primeiro linfonodo da axila. Esse linfonodo é retirado. Se estiver livre de comprometimento, não há necessidade de esvaziar a axila. "Hoje a extensão anatômica de uma mastectomia é menor", diz Mourão Netto. "A cirurgia foi aprimorada e os médicos procuram conservar estruturas móveis da axila, como os nervos sensitivos e motores."
A tendência é justamente oferecer às pacientes tratamentos menos agressivos, tanto do ponto de vista físico quanto emocional. A reconstrução da mama, que, em determinados casos, pode ser feita imediatamente depois da mastectomia, tem apresentado resultados excelentes. Estão em estudo, também, novas drogas, com efeitos colaterais mais suaves. O objetivo, a curto prazo, é cuidar de cada mulher de acordo com as características do seu tumor. Para isso, os cientistas buscam saber mais sobre as alterações genéticas que transformam uma célula normal em uma maligna.
Uma das pesquisas que ganha força atualmente em laboratórios da Europa, dos Estados Unidos e também do Brasil é o teste que revela o perfil molecular dos tumores de mama, isto é, que indica quais genes estão em atividade e quais aqueles que, por uma razão ou por outra, encontram-se "desligados". Os cientistas usam a técnica dos microarrays, que são lâminas de vidro com o DNA de milhares de genes vindos de tecidos normais e cancerosos. São genes de pacientes que têm um pequeno tumor, mas que ainda não apresentaram metástase. As seqüências de DNA são marcadas por fluorescência, com cores diferentes para células normais e malignas, o que ajuda a identificar os genes ativos e inativos.
Os resultados são comparados com o auxílio de métodos estatísticos. A partir daí, é possível determinar o padrão de cada tumor, saber se está relacionado a determinada manifestação do câncer e se responde aos tratamentos conhecidos. Pesquisadores dos Estados Unidos e da Holanda divulgaram, no início do ano, a conclusão preliminar de um estudo que identificou 70 genes relacionados aos tumores de mama e ao processo de evolução das células malignas. "Assim, será possível dizer à mulher se haverá metástase, se o tumor vai crescer e qual a melhor droga a ser administrada, por exemplo", diz Sérgio Verjovski-Almeida, da USP, que coordena um dos centros de seqüenciamento de DNA ligados ao Projeto Genoma do Câncer Humano e também trabalha com microarrays.

A prevenção
As novidades no diagnóstico e na terapêutica não excluem a prevenção - que se estende a todas as mulheres, mesmo aquelas que não estão no grupo de risco, e aos homens também. A ciência faz a parte que lhe cabe. Estão em pesquisa, por exemplo, drogas que simulam organicamente uma gestação, sem que a mulher precise engravidar de fato. Dessa maneira, o corpo equilibra os níveis de estrógeno e as células mamárias amadurecem por completo.
Para mulheres de alto risco, que têm parentes de primeiro grau com câncer no seio mas ainda não apresentam tumor, já existe o tratamento com o tamoxifeno, droga que imita os hormônios naturais, reduz em 52% a incidência de câncer no seio e também evita recidivas. Outra opção, mais radical e menos difundida no Brasil, é a mastectomia total para aquelas mulheres cujos exames genéticos indicam uma probabilidade muito alta de ocorrência de câncer. Com a retirada cirúrgica das mamas, há 99% de segurança de manter a doença bem longe. O problema aqui são as seqüelas psicológicas dessa medida e o seu impacto na qualidade de vida da paciente.
No dia-a-dia, vale a pena incluir alguns hábitos preventivos, além do auto-exame das mamas, recomendado para mulheres a partir dos 20 anos. "Existe uma boa evidência de que exercícios físicos e a manutenção do peso reduzem o risco de câncer de mama e que a ingestão excessiva de álcool aumenta as chances de ter a doença", afirma Julie Gralow. A alimentação também merece atenção especial. Já foi comprovado que uma dieta rica em fibras e com pouca gordura pode reduzir as taxas hormonais em até 20%.
Além dos cuidados físicos, a mulher também deve prestar atenção nas próprias emoções. Está cada vez mais evidente que o câncer de mama tem um componente psicológico bastante forte, presente tanto na facilitação do aparecimento do tumor quanto na resposta ao tratamento. "As emoções têm ligação direta com o sistema imunológico", diz a psicóloga Marisa Campio Müller, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre. "Estudos mostram que a persistência de sentimentos negativos, como depressão, angústia e melancolia, podem baixar as defesas naturais do corpo, propiciando que células malignas já existentes se desenvolvam."
Isso vale para o processo terapêutico também. "Se você não reage ao câncer, se não acredita na própria melhora, o seu organismo também não reagirá. O paciente é a peça fundamental no processo de cura", diz Marisa, que trabalha com psico-oncologia, um ramo da Psicologia que busca humanizar o tratamento do câncer. "O amor por si mesma é a melhor prevenção. A mulher precisa conhecer o próprio corpo, valorizar as próprias emoções e buscar qualidade de vida", afirma a mastologista Carmen Wolgien. A receita pode não ser infalível nem reverter as mutações dos genes. Mas, certamente, vai fazer você viver mais e melhor.

Anatomia de um tumor
ESTÁGIO PRÉ-CANCEROSONormal
As células da parede do ducto crescem ordenadamente e são bem diferenciadas

Hiperplasia típica
Crescimento das células que compõem o ducto ou o lóbulo sem características de malignidade. Chance mínima de evoluir para câncer.

Hiperplasia atípica
Crescimento anormal das células ductais ou lobulares, com alterações nos genes, e que pode predispor ao câncer de mama

ESTÁGIO 0
Carcinoma in situ, podendo ter microcalcificações

Definição
As células que se parecem com câncer, mas ainda não invadiram o tecido próximo, são chamadas de carcinoma in situ (câncer confinado ao ducto ou ao lóbulo)

Opções
Pacientes cujas lesões estão restritas ao tecido epitelial podem ser tratados com lumpectomia - retirada de parte da mama - e radioterapia

Perspectivas
Dificilmente alguém morre de câncer de mama depois de cinco anos de tratamento para o carcinoma nesse estágio

ESTÁGIO I
Carcinoma invasivo, restrito à mama

Definição
Algumas células malignas escapam do tumor, que pode chegar a 2 centímetros. Há possibilidade de micrometástase

Opções
Lumpectomia ou mastectomia, além de radioterapia. Os nódulos linfáticos são analisados. Quimioterapia pode ser recomendada

Perspectivas
Até 95% das mulheres vivem bem depois de cinco anos de tratamento

ESTÁGIO II
Invasivo, presente na mama e nos gânglios linfáticos

Definição
A maioria dos tumores nessa categoria mede de 2 a 5 centímetros, mas não necessariamente se espalharam. Linfonodos podem ter sido atingidos

Opções
Lumpectomia ou mastectomia e radioterapia. A quimioterapia pode ser indicada para os casos em que o tumor chegou aos linfonodos

Perspectivas
Conforme o tamanho do tumor e das características dele, 88% das mulheres vivem ao menos cinco anos depois do diagnóstico

ESTÁGIO III
Invasivo e loco-regional

Definição
Tumores acima de 5 centímetros. Já houve metástase. Além dos linfonodos, podem ter sido atingidas também regiões contíguas, como musculatura torácica e pele

Opções
Mastectomia e radiação. Quimioterapia em todos os casos. Terapia hormonal para tumores que respondem ao estrógeno

Perspectivas
Em torno de 55% das mulheres vivem ao menos cinco anos depois do diagnóstico

ESTÁGIO IV
Invasivo, com metástase à distância

Definição
Existem tumores secundários em outros órgãos do corpo, como fígado, ossos, pulmões e cérebro

Opções
Cirurgia ou radioterapia para remover ou tentar conter alguns tumores. Quimioterapia. A tentativa é amenizar os sintomas e prolongar a vida

Perspectivas
Estudos indicam, em média, uma expectativa de vida de 18 a 24 meses. Perto de 20% das mulheres vivem ao menos cinco anos depois do diagnóstico

ONDE ELE APARECE
O câncer pode surgir em qualquer área do seio, mas é mais comum no quadrante superior, que tem mais tecido mamário. Há um tipo de tumor, chamado Doença de Paget, que aparece no mamilo e é, muitas vezes, confundido com uma dermatite
A mamografia pode salvar a sua vida?
Durante os dois últimos anos, o debate sobre a eficácia da mamografia de rotina agitou o meio científico internacional. Pesquisadores dinamarqueses analisaram estudos prévios sobre os benefícios do exame e concluíram que o uso da mamografia não diminui significativamente o risco de as mulheres morrerem de câncer de mama. A comunidade médica argumentou que vários estudos revistos pelos dinamarqueses eram de 30 anos atrás, quando os métodos de diagnóstico e tratamento não tinham a sofisticação dos atuais.Controvérsias à parte, uma expectativa muito grande ronda a mamografia de rotina, mesmo que o exame deixe de apontar de 10% a 15% dos tumores de mama. "Não serve para mulheres abaixo de 40 anos, a não ser em situações especiais, como casos de hereditariedade", diz a mastologista Elisabeth de Mesquita, do Hospital das Clínicas de São Paulo. O índice de overdiagnose também é alto. Pesquisas indicam que somente de 2% a 11% das anormalidades encontradas num exame de rotina vão se tornar, de fato, câncer. "A mamografia faz com que pessoas sem câncer se submetam a biópsias e procedimentos cirúrgicos desnecessários", diz a oncologista Julie Gralow, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.
Tumores minúsculos e não-invasivos, que talvez não progredissem a ponto de se tornarem sintomáticos, são tratados com cirurgia e, algumas vezes, com radiação ou terapia hormonal. "É sempre possível que, nesses casos, os efeitos colaterais desses tratamentos sejam piores que os benefícios que possam trazer", diz Julie. Mas isso não tira os méritos da mamografia. "O exame pode não aumentar a expectativa de vida para uma paciente específica", diz Elisabeth. "Mas, se, num grupo de muitas mulheres, a mamografia encontra um tumor em fase inicial, pode salvar uma vida."
Novas estratégias de combate
VACINAUma equipe de médicos liderada pelo austríaco Christoph Zielinski, da Universidade de Viena, está desenvolvendo uma vacina para o câncer de mama. Ela poderia ser usada tanto na prevenção da doença, em mulheres com risco elevado, quanto no tratamento de tumores existentes. Começará a ser testada em um ano

ENDOSCOPIA
Os tumores poderão ser examinados com uma câmera de fibra óptica em miniatura, inserida através do mamilo até os ductos mamários. A expectativa é de que os cirurgiões possam utilizar esse tipo de sonda também para tratar o câncer de mama - o que provavelmente deve acontecer em menos de cinco anos

RADIAÇÃO DIRIGIDA
Depois da retirada de uma parte do seio, numa lumpectomia, uma sonda com cristal sensível à radioatividade é colocada diretamente no local em que estava o tumor. Esse tipo de cirurgia pode detectar as metástases ocultas, tumores inferiores a 1 milímetro que não são percebidos mesmo pelos exames mais sofisticados

EXTRAÇÃO
Em vez de uma cirurgia para tirar o tecido canceroso, os tumores poderão ser congelados ou vaporizados com raios laser ou ondas radioativas de alta freqüência por uma sonda, inserida através de uma pequena incisão no seio. A técnica já é usada para tumores de fígado. Testes para câncer de mama estão em andamento

TERAPIA VASCULAR
O objetivo é parar a gênese da multiplicação das células cancerosas, eliminando as células dos vasos sangüíneos que alimentam o tumor e facilitando a ação das drogas. Com a engenharia genética, fabricam-se proteínas capazes de se ligar ao revestimento vascular e acabar com a nutrição dos tumores. Em teste

HUMOR


SORRIA!

"Procure ver o lado bom das coisas ruins." Essa frase poderia estar em qualquer livro de auto-ajuda ou parecer um conselho bobo de um mestre de artes marciais saído de algum filme ruim. Mas, segundo os especialistas que estudam o humor a sério, trata-se do maior segredo para viver bem. Não é difícil encontrar exemplos que comprovam que eles têm razão. Como um palmeirense poderia manter o alto-astral depois que seu time perdeu a final da Taça Libertadores da América? Fácil. É só lembrar que o Palmeiras eliminou o arqui-rival Corinthians nas semifinais da competição. Inversamente, a mesma situação pode servir para manter o bom humor do corinthiano. Afinal, embora seu time tenha sido eliminado, o Palmeiras acabou morrendo na praia. Não se trata de ver o mundo com os olhos róseos de Pollyanna. Esse tipo de flexibilidade para encarar os acontecimentos ruins não garante apenas algumas risadas: pode fazer bem para a saúde.
O bom humor é, antes de tudo, a expressão de que o corpo está bem. Ele depende de fatores físicos e culturais e varia de acordo com a personalidade e a formação de cada um. Mas, mesmo sendo o resultado de uma combinação de ingredientes, pode ser ajudado com uma visão otimista do mundo. "Um indivíduo bem-humorado sofre menos porque produz mais endorfina, um hormônio que relaxa", diz o clínico geral Antônio Carlos Lopes, da Universidade Federal de São Paulo. Mais do que isso: a endorfina aumenta a tendência de ter bom humor. Ou seja, quanto mais bem-humorado você está, maior o seu bem-estar e, conseqüentemente, mais bem-humorado você fica. Eis aqui um círculo virtuoso, que Lopes prefere chamar de "feedback positivo". A endorfina também controla a pressão sangüínea, melhora o sono e o desempenho sexual. (Agora você se interessou, né?)
Mas, mesmo que não houvesse tantos benefícios no bom humor, os efeitos do mau humor sobre o corpo já seriam suficientes para justificar uma busca incessante de motivos para ficar feliz. Novamente Lopes explica por quê: "O indivíduo mal-humorado fica angustiado, o que provoca a liberação no corpo de hormônios como a adrenalina. Isso causa palpitação, arritmia cardíaca, mãos frias, dor de cabeça, dificuldades na digestão e irritabilidade". A vítima acaba maltratando os outros porque não está bem, sente-se culpada e fica com um humor pior ainda. Essa situação pode ser desencadeada por pequenas tragédias cotidianas - como um trabalho inacabado ou uma conta para pagar -, que só são trágicas porque as encaramos desse modo.
Evidentemente, nem sempre dá para achar graça em tudo. Há situações em que a tristeza é inevitável - e é bom que seja assim. "Você precisa de tristeza e de alegria para ter um convívio social adequado", diz o psiquiatra Teng Chei Tung, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "A alegria favorece a integração e a tristeza propicia a introspecção e o amadurecimento." Temos de saber lidar com a flutuação entre esses estágios, que é necessária e faz parte da natureza humana. O humor pode variar da depressão (o extremo da tristeza) até a mania (o máximo da euforia). Esses dois estados são manifestações de doenças e devem ser tratados com a ajuda de psiquiatras e remédios que regulam a produção de substâncias no cérebro. Uma em cada quatro pessoas tem, durante a vida, pelo menos um caso de depressão que mereceria tratamento psiquiátrico.
Enquanto as conseqüências deletérias do mau humor são estudadas há décadas, não faz muito tempo que a comunidade científica passou a pesquisar os efeitos benéficos do bom humor. O interesse no assunto surgiu há vinte anos, quando o editor norte-americano Norman Cousins publicou o livro Anatomia de uma Doença, contando um impressionante caso de cura pelo riso. Nos anos 60, ele contraiu uma doença degenerativa que ataca a coluna vertebral, chamada espondilite ancilosa, e sua chance de sobreviver era de apenas uma em quinhentas. Em vez de ficar no hospital esperando para virar estatística, ele resolveu sair e se hospedar num hotel das redondezas, com autorização dos médicos. Sob os atentos olhos de uma enfermeira, com quase todo o corpo paralisado, Cousins reunia os amigos para assistir a programas de "pegadinhas" e seriados cômicos na TV. Gradualmente foi se recuperando até poder voltar a viver e a trabalhar normalmente. Cousins morreu em 1990, aos 75 anos.
Se Cousins saiu do hospital em busca do humor, hoje há muitos profissionais de saúde que defendem a entrada das risadas no dia-a-dia dos pacientes internados. O mais radical deles é Patch Adams, um médico americano que começou no mês passado a construir o primeiro "hospital bobo" do mundo . Adams quer que os doentes dêem risadas enquanto se recuperam. Uma boa gargalhada é um método ótimo de relaxamento muscular. Isso ocorre porque os músculos não envolvidos no riso tendem a se soltar - está aí a explicação para quando as pernas ficam bambas de tanto rir ou para quando a bexiga se esvazia inadvertidamente depois daquela piada genial. Quando a risada acaba, o que surge é uma calmaria geral. Além disso, se é certo que a tristeza abala o sistema imunológico, sabe-se também que a endorfina, liberada durante o riso, melhora a circulação e a eficácia das defesas do organismo.
A alegria também aumenta a capacidade de resistir à dor, graças também à endorfina. Vários estudos já comprovaram isso, alguns deles bem engraçados. Uma dessas pesquisas colocou um grupo com as mãos dentro de um balde de água gelada enquanto passava um filme humorístico. Essas pessoas ficavam com as mãos na água mais tempo que outros sem estímulo divertido.
Evidências como essa fundamentam o trabalho dos Doutores da Alegria, que já visitaram 170 000 crianças em hospitais. As invasões de quartos e UTIs feitas por 25 atores vestidos de "palhaços-médicos" não apenas aceleram a recuperação das crianças, mas motivam os médicos e os pais. A psicóloga Morgana Masetti acompanha os Doutores há sete anos. "É evidente que a trabalho diminui a medicação para os pacientes", diz ela.
O princípio que torna os Doutores da Alegria engraçados tem a ver com a flexibilidade de pensamento defendida pelos especialistas em humor - aquela idéia de ver as coisas pelo lado bom. "O clown não segue a lógica à qual estamos acostumados", diz Morgana. "Ele pode passar por um balcão de enfermagem e pedir uma pizza ou multar as macas por excesso de velocidade." Para se tornar um membro dos Doutores da Alegria, o ator passa num curioso teste de autoconhecimento: reconhece o que há de ridículo em si mesmo e ri disso. "Um clown não tem medo de errar - pelo contrário, ele se diverte com isso", diz Morgana. Nem é preciso mencionar quanto mais de saúde haveria no mundo se todos aprendêssemos a fazer o mesmo.

Termômetro do ânimo
ManiaO bom humor exagerado pode ser acompanhado por tagarelice e megalomania, que tornam o convívio social insuportável.

Hipomania
Uma forma mais leve de mania, em que a euforia é menor. Quem tem hipomania é otimista demais e tende a querer desafiar os outros.

Hipertimia
O indivíduo fica alegre e agitado, com muita disposição e pouca necessidade de descanso. Em geral, seu comportamento não causa prejuízos.

Neutro
O humor de uma pessoa saudável varia muito durante o dia, mas sempre entre as fronteiras da hipertimia e da hipotimia.

Hipotimia
Lembra-se daquele cara que se vestia de preto e curtia um som melancólico? O hipotímico não sente tanto prazer nas coisas, mas fica confortável na sua "tristeza".

Distimia
É uma depressão leve. O distímico costuma ser rabugento, irritável e pessimista. Não gosta de nada e afasta amigos e pretendentes.

Depressão
A tristeza profunda é acompanhada de uma sensação de vazio. Um deprimido não sente prazer e se irrita fácil. O pessimismo toma conta de tudo.
Hospital ou circo?
Imagine um hospital em que há um salão de dança, um teatro e até espaço para meditação. A entrada fica no meio de dois pés gigantes, a sala de exames oculares parece um enorme olho de vidro e a de exames auriculares - adivinhe - tem a forma de um imenso ouvido. Tudo num edifício tão colorido que parece mais um parque de diversões (veja a ilustração ao lado). Esse é o sonho que Patch Adams vem acalentando nos últimos trinta anos, desde a época em que chocava os colegas e professores da faculdade de Medicina vestindo-se de palhaço para fazer os pacientes rir.
O projeto é ousado: trocar a sisudez dos médicos e os planos de saúde por atendimento afetuoso e gratuito. O nome do hospital? "Gesundheit!" - a palavra maluca que os alemães dizem quando alguém espirra. Significa "saúde". O local? A cidade de Pocahontas, nos Estados Unidos - isso não é uma piada, a cidade tem mesmo o nome da personagem do filme da Disney.